2ª Marcha do Orgulho LGBTQIA+ de Setúbal

Manifesto

Até que enfim! A 2ª Marcha do Orgulho LGBTQIAP+ de Setúbal acontece hoje, 24 de Outubro de 2026!

Sonhada e construída por nós em 2025, um grupo de pessoas lésbicas, trans, bissexuais, gays, intersexo, assexuais, não monogâmicas e muito mais, mas também de pessoas que não são nada disso. Somos mães, pais, avós, tias, familiares, amigues... Somos as pessoas que vocês vêem todos os dias na rua, no autocarro, no trabalho, na escola, nas finanças, na fila do pão e atrás do balcão, no governo e na prisão.

Mas um ano depois continuam a dizer mentiras sobre nós. Por isso reafirmamos: não somos os monstros que criam nos vídeos e discursos da internet. E esta Marcha é, mais uma vez, uma oportunidade para largarem o telemóvel e olharem para nós em carne e osso. Nós somos Setúbal. Periferia e centro, centro e periferia.

Todos os dias nos dizem para estarmos caladinhas, para sermos discretas, para não fazermos alarido. Exigem que paremos de existir. Dizem-nos que ninguém tem nada a ver com o que fazemos entre quatro paredes. Mas nós não estamos aqui a falar apenas de sexo nem de temas para adultos, como querem fazer parecer. Há pessoas LGBTQIAP+ de todas as idades!

Estamos a falar de famílias, de amor, de identidades e sexualidades, mas sobretudo de seres humanos. A Ideologia de Género não é real, é algo que inventaram para distorcer a nossa imagem. O que sentimos na pele todos os dias, independentemente da nossa orientação sexual ou identidade de género, isso sim é o Terrorismo de Género, os moldes em que nos querem confinar, os papéis a que nos querem reduzir e as normas a que nos querem subordinar. Querem-nos limitar, condicionar e formatar.

E apesar de permanecerem as dificuldades que, em 2025, se faziam sentir, os retrocessos que ameaçavam destruir tudo aquilo que conquistámos até então estão cada vez mais perto de se concretizarem.

Em todo mundo, os direitos das pessoas LGBTQIAP+ estão a ser revertidos e Portugal deu pela primeira vez, em muito tempo, um passo atrás. Em março de 2026, a Assembleia da República aprovou, na generalidade, iniciativas legislativas do PSD, CDS-PP e Chega, que propõe alterações profundas ou até mesmo a revogação de aspetos centrais da Lei N.º38/2018 relativa ao direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e à proteção das caraterísticas sexuais de cada pessoa.

Estas iniciativas, que recentemente foram discutidas na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, expondo o ódio, a homofobia e a transfobia dos seus propunentes e dos grupos que os apoioam, constituem uma verdadeira ameaça aos direitos, à segurança e à vida das pessoas trans e das pessoas intersexo. São documentos que ignoram dados científicos, recomendações de especialistas e pareceres e alertas de entidades nacionais e internacionais, como a Ordem dos Psicólogos Portugueses, a OMS e a ONU.

Documentos que representam um esforço ideológico para fechar e fazer retroceder a nossa sociedade e limitar o pluralismo e a diversidade, com base na desinformação e na discriminação.

Por isso voltamos a perguntar: Preferem uma sociedade fechada e da ignorância ou uma sociedade aberta e do conhecimento?

E o conhecimento é poder! O conhecimento começa nas escolas, na educação e na transmissão de valores universais e de Direitos Humanos. E os Direitos Humanos não se concretizam se não tivermos a garantia do acesso à saúde sexual para todas as pessoas. Pessoas com útero podem ou não querer parir, e nem por isso são mais ou menos, são escolhas individuais. E mais! Se na saúde continuamos a julgar pelas escolhas de cada um, também o estigma relacionado com as IST’s não irá acabar, e ficarão muitas mais pessoas por diagnosticar. Por vergonha, por medo, por desconfiança e discriminação.

Hoje só estamos aqui porque nosses antepassades fizeram os Motins de Stonewall. Este foi um acto de desobediência civil, tal como como as acampadas que estão a acontecer pelo direito à habitação, com as quais estamos em solidariedade.

A homofobia, a transfobia, o racismo, o capacitismo, a misoginia e o machismo não desapareceram; são pilares bolorentos que sustentam o sistema em que vivemos. A polícia não deixou de fazer rusgas em bares queer. Nos últimos anos já deixaram de ser novidade as rusgas policiais de violência injustificada em espaços queer de Lisboa, curiosamente também muito frequentados por pessoas trans e racializadas, interrompendo o nosso direito ao convívio, ao prazer, ao estarmos juntas.

Setúbal é a cidade onde muitas de nós vivemos. Na primeira reunião de organização desta marcha perguntámos: "Porquê uma marcha aqui?” As respostas foram:
“Porque vejo pessoas LGBTQIA+ a ser mal-tratadas”,
“Para não haver retrocesso”,
“Porque as letras têm de estar todas juntas”,
“Porque vamos para a escola e vemos esta geração cada vez mais conservadora”,
“Para que se veja que jovens também se interessam”,
“Porque a minha filha quer organizar a marcha”,
“Porque quero ter orgulho de Setúbal”,
“Porque amo esta cidade de paixão”
e “Quero mostrar a cara porque há muitas pessoas que não o podem fazer”.

Setúbal, esta cidade de resistência. Setúbal, esta cidade que convive com a serra, o mar e o rio. Setúbal, esta cidade segregada por zonas, classes e etnias, não acessível a todas as pessoas. Onde há tantos edifícios e serviços deficientes de rampas, de elevadores, de braille, de traduções e noções. Onde há tanta gente sem casa e tanta casa sem gente. Onde as zonas mais pobres ficam tão perto mas tão longe. Muita coisa tem de mudar na cidade, e não é apenas na questão LGBTQIAP+. Está tudo ligado. A nossa luta é só uma.

Dizem-nos que somos da margem Sul. Nós dizemos: "da margem Norte do rio Sado", porque este rio nunca deixou de ser rebelde, a correr ao contrário do que seria esperado. Porque, na verdade, anti-natura é não respeitar a natureza. Anti-natura é pensar que as praias e o espaço coletivo podem ser privatizados. E já agora, fica o facto científico: sabem que até os massacotes mudam de sexo? E outros peixes, como as judias, e os alcorrazes? Ainda não se falava em linguagem inclusiva e em Setúbal já dizíamos “apá miga” a pessoas de qualquer género. É tão natural como peixe dentro de água.

E como setubalenses na praia! Na praia pública, como a praia da Rasca, da Comenda, da Rainha, da Maria Esguelha e de Albarquel. Pública, como deviam ser todas as praias. Estamos há demasiado tempo a testemunhar a privatização de tudo o que ao povo pertence por parte de quem está no poder, agora de uma família rica a querer ter posse da areia e do mar. Nós não vamos parar de resistir. A praia pertence-nos, a Arrábida pertence-nos, a cidade pertence-nos.

E se esta é a segunda vez que marchamos pelos direitos LGBTQIA+ na cidade e também no distrito de Setúbal, gostaríamos que pudesse haver novas marchas em todo o país, e em todos os países, e que esta liberdade se estendesse a todo o globo, que não fossemos mais criminalizadas ou até sujeitas a pena de morte. Queremos afirmar aqui que acreditamos que um dia a Palestina também será livre e também em Gaza haverá uma marcha que ocupará as ruas e onde se ouvirá “Até que enfim!”

Porque sonhar é isto: querer um mundo melhor, não só para alguns de nós, mas para todas, todos e todes.

Então esta não é uma marcha só para as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, queer, trans, intersexo e assexuais. É para todas as pessoas que querem e merecem viver com mais liberdade.

Continuemos esta fluência de corpo resistente e existente, onde cada pessoa é uma gota que forma este rio tão diverso e colorido. Que este manifesto escorra pelos corpos e rachas do mundo, onde continue a nutrir o respeito e compaixão por cada ser que é e vive.

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